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padre

 

Existia uma família que vivia um verdadeiro inferno aqui na terra. Tudo ia mal dentro daquela casa, nada dava certo, até que um dia o chefe da família foi procurar um padre que tinha o dom de profecia e cura. Ele era muito procurado por todos. Foi no final da tarde, depois de ter tomado umas cachaças que o pai daquela família foi falar com o padre. Chegando lá o padre disse assim:

 – Pois não meu filho. Em que posso ajudá-lo? Você tem algum problema?
Ele logo respondeu.
 
 – É claro que eu tenho problema. Se eu não tivesse não estaria aqui. Ora mais, quem não tem problema hoje em dia?
 
O padre então falou:
 – Pois me fale meu filho, qual é o seu problema.
 
 – O meu problema é a minha família. Seu padre, a minha família é um inferno! Se o senhor não conhece o inferno ainda, tá convidado a fazer uma visita lá em casa. Lá em casa tudo dá errado.  Nós só temos dívida, doença, e outras coisas que num prestam. A minha mulher vive doente. Vive tomando remédio por cima de remédio. O meu filho mais velho fuma maconha, tem cabelo grande, é todo tatuado. Seu padre o senhor acredita que ele tem uma caveira tatuada no braço?
 
 – Acredito sim meu filho.
 
 – Tem mais seu padre: a minha filha já teve uns cinco namorado. O meu menino mais novo foi expulso de três colégio e hoje tá fazendo seis mês, três dia e quatro hora que a minha sogra tá morando lá em casa. Como eu num agüento aquela velha,  eu acabo tomando minhas cachaça! Então eu vim aqui por que falaram que o senhor tem umas mão milagrosa, e vim pedir pro senhor fazer uma reza em mim.
 
Então o padre colocou a mão na cabeça dele e começou a rezar. O padre em seguida falou para ele:
 – Filho eu estou tendo uma visão.
 
 – O quê que o senhor ta vendo?
 
 – Filho eu estou enxergando que na sua casa tudo vai mal.
 
 – Grande coisa seu padre! Isso aí eu falei pro senhor.
 
 – Filho, o problema é muito sério. É tão sério que eu não sei se eu tenho coragem de falar.
 
 – Pelo amor de Deus seu padre! Pode falar que eu tou preparado. Se for o que eu tou pensando, o senhor fala que eu mato ela e ele! Mato hoje mesmo! Por isso que quando eu procuro ela de noite ela diz que ta com dor de cabeça. Ah… mas ela vai ver seu padre quando eu chegar em casa eu mato essa condenada da minha mulher!
 
 – Meu filho, pelo amor de Deus não é nada disso que você está pensando! Eu vou falar para você agora o verdadeiro motivo de sua família ser esse inferno todo. Dentro da sua casa, vocês estão cometendo o maior pecado que se pode cometer.
 
 – Mas que pecado é esse seu padre?
 
 – O pior meu filho é que eu não sei se tem saída. Esse é o pior de todos os pecados. Eu não deveria, mas eu vou falar.
 
 – SEU PADRE FALE AGORA HOMI DE DEUS!
 
 – Está bem, também não precisa gritar. É o seguinte, o maior pecado que vocês cometem dentro da casa de vocês é não reconhecer que Jesus Cristo vive lá.
 
 – Jesus Cristo vive lá em casa?
 
 – Vive… Filho presta atenção no que irei te falar agora: Deus é amor. Deus mandou Jesus para salvar a humanidade e a humanidade matou Jesus.
 
 – É seu padre, isso eu sei pois eu assisti naquele filme que passou na televisão.
 
 – Porém meu filho, Deus mandou Jesus Cristo de volta a terra.
 
 – Valha seu padre, num tou sabendo disso não.
 
 – Mandou sim. Para não ser eliminado, ele veio a terra dis-far-ça-do!
 
 – Ahhhhhhh! Então se Ele veio disfarçado como é que ia saber?!
 
 – De fato meu filho. Porém Ele está disfarçado em um dos membros da sua família.
 
 – Seu padre o senhor ta falando que ele tá lá em casa? O senhor pode olhar aí na sua Bíblia que o endereço Dele não é lá em casa não!
 
 – Filho, um de vocês é o próprio Jesus Cristo disfarçado.
 
 – Então quem é seu padre?
 
 – Filho não posso falar, vocês mesmos tem que descobrir.  Como vocês não descobriram ainda, vocês estão tratando mal um ao outro, logo estão tratando mal Jesus Cristo e quem trata mal Jesus Cristo, tudo vai mal.
 
 – Ah, mas eu vou resolver esse problema!
 
Então ele foi para casa e reuniu toda a família e falou:
 – Pessoal, nós temos aqui um problema muito sério pra resolver! Eu tive essa tarde numa santa conferência com o padre que tem as mãos milagrosa e ele falou que um aqui é o próprio Senhor Jesus Cristo que ta disfarçado aqui em casa. Seja quem for, que se apresenta agora mesmo!  Quem é? Pode se apresentar logo que eu tou preparado pro pior.
 
Seu filho mais velho falou assim:
 – Vixe, o pai bebeu hoje.
 
 O pai então respondeu.
 – Eu tomei uns golinho sim, mas eu tou consciente do que eu tou falando. Quem é? Quem? Pode falar logo!
 
Ninguém se apresentou e então ele ligou para o padre.
 – Alô, seu padre! É eu. Olha, eu fiz uma pesquisa aqui em casa e vi que num é aqui não. Deve ter havido um engano na sua oração.
 
Então o padre falou para ele ao telefone que ele não tinha se enganado e que era lá mesmo que Jesus estava disfarçado. De repente seu filho mais velho chegou perto dele e disse:
 – Pai, e se for a vó?
 
O pai então respondeu:
 – Minha nossa senhora! Eu tive pensando nisso também meu filho, mas tomara que não seja. Até por que meu filho, eu tenho tanta raiva dessa velha, aliás meu filho, deixa de falar besteira. Isso é uma blasfêmia! Você sabe por que foi que Pedro negou Jesus três vezes? Sabe por quê? Isso foi mágoa Dele ter curado a sogra dele. Agora me diz meu filho, como é que uma jararaca dessa pode ser Jesus. Meu filho, aprenda desde pequeno, sogra a gente só gosta que nem eu gosto de cerveja: Geladinha em cima da mesa.
 
O filho então falou novamente:
 – Então vai ver é o pai.
 
Então a sogra respondeu.
 – Deve ser! Eu fico aqui só imaginando em qual capítulo da Bíblia fala que Jesus Cristo era um sem vergonha, pinguço, homem que não vale nada! Eu nunca fui com a sua cara seu fuleragi. Desde a primeira vez que eu te vi, eu tentei impedir que a minha filha casasse com você.
 
 – Obrigado minha sogra, pelo menos uma coisa boa na vida você tentou fazer, pois se tivesse conseguido eu num tinha entrado nessa desgraça toda que eu tou. – Respondeu o pai.
 
O filho mais novo falou novamente:
 – Pai, deve ser então mamãe.
 
O pai respondeu:
 – Deve ser! Inclusive, procura aí na Bíblia o capítulo que fala do guindaste para levantar a cruz! Por que meu filho, uma cruz para aguentar os 110 quilos da sua mãe, só se fosse uma cruz de ferro. Deixa de falar besteira muleque.  Além do mais, Jesus Cristo curou todas as doença e a sua mãe tem todas as doença.
 
 – Então vai ver que é o mais velho.
 
 – Imagina só Jesus Cristo na cruz com uma caveira tatuada no braço!? Meu filho, você ta ofendendo nosso Senhor Jesus Cristo. Pelo amor de Deus meu filho, você acha que Jesus Cristo fumava maconha?
 
O filho mais novo continuou insistindo.
 – Pai, então é minha irmã.
 
O Pai respondeu novamente:
 – Deve ser! Inclusive a roupa que ela usa é parecida mesmo com a roupa que o Cristo tava na cruz. Pelo amor de Deus meu filho. Só falta agora você falar que é você Junhinho! Pensa bem meu filho, Jesus Cristo com doze anos já estava discutindo com os doutores e você com 10 anos já foi expulso de três colégio. Me poupe meu filho! Eu num aguento mais. Vou sair pra espairecer minha cabeça.
 
Então ele foi para o boteco e pediu para beber uma dose bem cheia de cachaça e ficou lá até a hora de ir dormir. No dia seguinte ele foi trabalhar bem pensativo e quando chegou de noite em casa a família toda estava pensativa também. Seu filho mais novo, o Junhinho, chegou para ele novamente e perguntou:
 – Pai, o senhor pensou no que o padre falou?
 
 – Pensei sim meu filho. Pensei o dia inteiro.
 
 – Pai… E se for realmente a vó?
 
 – Junhinho, a gente pede a Deus que não seja, mas pode ser que seja, pois ela vai sempre pra igreja, e também tem o fato de Jesus ter vivido há mais de dois mil anos e ela é a mais próxima Dele. Sabe de uma coisa? Eu vou tratar melhor essa velha. Vou me sacrificar mais pra tratar melhor essa cascavel.
 
No dia seguinte ele acordou cedo, fez café e levou para a sogra. Ela achou estranho e mandou ele tomar um gole primeiro para ver se não estava envenenado. Então ela tomou seu café da manhã com ele, conversaram um pouco e com o passar do tempo, ela começou a melhorar. Então a sogra pensou que  Jesus poderia ser seu genro e começou a tratá-lo melhor. Logo em seguida a mãe e os filhos começaram a perceber que o clima naquela casa estava mudando e foram percebendo um por um suas falhas.
 
A mãe começou a preparar uma comida melhor para o seu esposo, ele começou a se preocupar mais com as doenças dela, os filhos lembraram de como seus pais eram carinhosos com eles na infançia e que as crises da adolescência tinha os afastados. Lembraram também do tempo que um não falava para o outro “eu te amo”. Os pais perceberam como eles também tinham se afastado de seus filhos devido à rotina de trabalho de cada um.
 
Cada um naquela casa começou a tratar o outro com respeito. Suas palavras agora eram: Bom dia, obrigado, que bom que você veio, fica mais um pouco, você está bem, e assim às coisas realmente mudaram naquela família. A mulher já não precisava mais de todos aqueles remédios,  o marido nem passava mais no boteco para beber pois quando ele saia do trabalho, já ia direto para casa, porque  sabia que lá tinha uma família aguardando por ele. A filha começou a usar umas roupas mais decentes. Hoje sua maior alegria é sentar no colo do seu pai e morder sua orelha. A cena era impressionante. Uma moça de dezessete anos parecia uma criança de oito, brincando com seu pai. O pai voltou a jogar bola com seu filho mais velho. A sogra começou a ajudar nas despesas da casa com sua aposentadoria e passou a se sentir útil. Como agora já não gastavam tanto dinheiro com bebidas, remédios e drogas, aos poucos foram se livrando das dívidas.
 
Num certo domingo, aquele padre que fez a “revelação” para aquela família, no momento em que celebrava a missa viu todos eles juntos sentados no banco daquela igreja, participando da missa. Aquela missa foi talvez a mais especial que ele já tinha celebrado. Ao final da missa ele chamou todos eles e disse:
 – Parabéns meus filhos. Estou muito feliz por vocês. Vocês conseguiram uma das maiores graças que um ser humano pode conseguir. Quando vocês foram procurar Jesus entre vós, vocês conseguiram olhar para cada um e para vocês mesmos com os olhos do próprio Jesus.
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consagrada

“O amor me coloniza. Faz comigo o mesmo que Portugal fez com minha pátria. Arranca o ouro, devasta as reservas e me outorga misérias que frutificaram no futuro.
(…)
 
Amar é perder a pertença; ser invadida por outro, ver rasgada a cortina que me preservou por tantos anos indivisa, proprietária da decisão de descer escadas, cruzar a rua, realizar o simples da vida, o ordinário, o natural do ser livre. (…) Muitas vezes quis gritar minha independência, correr atrás da alforria que me abriria as portas do mundo, colocar os pés na estrada que permitiria a fuga do corpo, a liberdade tão almejada, mas não pude. (…) Fausto fez comigo o mesmo que o capitão faz com o navio. Acessou os comandos do motor, tomou posse do leme, quebrou qualquer distância que pusesse existir entre o planejado e o realizado.
(…)
 
Ele me prendeu sem alterar a voz. As primeiras ataduras vieram pelo seu olhar. Recordo-me. A missa estava começando quando pude perceber o moço bonito a observar-me de longe. O primeiro embate. Render-me ao ritual santo ou à atração da carne? Optei pela segunda. Ele estava no altar ajudando o Padre Clemente com a celebração. Era uma presença misteriosa. Nunca tinha sido visto na cidade. Um rosto coberto de estranhezas, oriundo de destinos que desconhecíamos. Somente depois pude saber que se tratava de um sobrinho do vigário. Veio para a cidade com o intuito de dar continuidade aos estudos. (…) O altar estava temporariamente deslocado. Deixara de ser de pedra. Assumira carne humana e olhava-me com os olhos.
(…)
 
Fausto. Eu ainda não sabia o nome dele. Dele eu não tinha quase nada. Somente o olhar envolvente, fixo, sem medo de ser flagrado em sua distração carnal. Olhava-me invasivo, sem escrúpulos. Dissecava todos os detalhes do meu corpo, medindo-me como se eu fosse uma estrada por onde desejava caminhar. (…) E eu o recebia,  assim como a terra recebe a chuva, agradecida.
 
Com a missa terminada, o início da possessão. Veio sozinho e antecipou-se em dizer que gostaria de conhecer-me. Não houve demora. Segurou minhas mãos e fez com a minha carne o mesmo que os olhos já tinham feito com minha parte imaterial. A proposta era simples, mas mudaria o rumo da minha vida. Um passeio público pelos jardins da praça matriz.
 
Já sabedora da origem do rapaz, minha mãe não se opôs ao que ele me sugeria.
(…)
 
Nove meses depois do primeiro encontro eu já era sua esposa. Com o casamento, ele desistiu dos estudos. Ajudado pelo tio, montou uma mercearia que ainda hoje é nosso sustento. Não tivemos filhos, Fausto achou por bem não deixar descendência. (…) Fausto nunca me permitiu pensar por mim. Meus pensamentos eram os dele. Minha capacidade reflexiva foi adormecida pelas suas ponderações sofridas. A inteligencia aguçada que antes estava em mim foi brutalmente assassinada pelo olhar do altar. Aquela missa tão distante no tempo  mudou minha vida. Desde aquele dia, Fausto cerceou-me sem recorrer as armas. Conquista mansa, pé a pé. Avanço lento, passos medidos que com o tempo foram ficando largos. 
(…)
 
O tempo passou. A clausura do amor me envelheceu. Agonizo dia e noite com o medo de perder o homem que preencheu todas as minhas ausências. (…) O amor que tenho por ele me empobrece. Sofro dia e noite de insegurança. (…) Fausto me aleijou a alma. Reduziu-me a ser humana, carne que morre sem auxílio da esperança eterna. Conheci o desconforto de necessitar de braços e pernas me enlaçando na solidão da noite, dedos e olhos me fazendo esquecer a beleza das realidade etéreas.
(…)
 
Ele me diabolizou. Cortou todos os símbolos que me emprestavam asas. Restou-me pouco. Eu e minhas circunstâncias. Eu e meu retalho de mundo. Sem sonhos, sem descendências, sem Deus. Meu mundo é Fausto. Minha alegria depende do perfeito funcionamento de suas tripas, coração, ossos, sangue e outras fragilidades. O cordão que me prende é tênue. Sofre de diabetes, pressão alta, pancreatite crônica. Meu redentor falece aos poucos.Cumpre a sina de vivera normativa falência que desencadeia a indigência que nos governa. 
(…)
 
Eu não sei o que farei no dia em que o altar estiver vazio. Não sei o que direi no momento em que meu deus pagão fechar os olhos e partir. (…) O frio do futuro não conhece misericórdia. (…) Depois daquela missa nunca mais fui a mesma. Minha mãe fez comigo o que Abraão não fez com Isaac. Entregou-me à lâmina. Fausto é meu algoz. Ao chegar em minha vida, desceu sobre minha alma sua cimitarra e assassinou meus significados antigos. Essa é minha condenação. Depois que Fausto se for, morrer será só morrer. Em vão.”
 
Texto extraído do livro “Orfandades – O Destino das Ausências” do Pe. Fábio de Melo.
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