amor doentio

Carência afetiva é um território que poucos ousam adentrar. Muitos a veem como um monstro e preferem fugir dela. No entanto, nos últimos dias, tenho descoberto que de monstros não devemos fugir e sim, enfrentá-los. Monstros se alimentam do nosso medo. Quanto mais o tememos, maiores eles ficam.

Gostaria de ressaltar antes de tudo, que expor esse assunto aqui é me expor também. É abrir um pouco da minha intimidade para pessoas que não me conhecem a fundo e para pessoas que não me conhecem de maneira alguma. Enfim, já não é de hoje que sei o preço que eu pago em ser quem eu sou. Mesmo me expondo, não poderia deixar de compartilhar isso, pois sei quão comum tem sido nos dias de hoje essa “epidemia” chamada carência.

Não sou de arrodeio e irei direto ao ponto. Primeiramente, não negue sua carência. Negar sua carência é negar sua humanidade. Não somos divindades, não somos mutantes, muito menos robôs, somos seres humanos com necessidades afetivas e isso não é nenhum bicho de sete cabeças. Todos nós temos necessidades de amar e de ser amado, e isso é normal. Anormal seria se você já não tivesse mais esse desejo em seu coração. Você desejar compartilhar sua vida ao lado de alguém que você ama, é algo belíssimo e digno de louvor. Apostar e acreditar numa vida a dois, numa sociedade onde o casamento é considerado um projeto falido, é algo nobre onde somente pessoas que possuem o amor dentro de si são capazes de lutar por isso. Então, repito: não negue sua humanidade, suas fragilidades, suas carências.

Segundo ponto é o seguinte: já que não podemos vencer/negar nossas carências, devemos nos aliar a ela. Deixá-la entrar em nossa casa e a convidarmos para sentar na sala e tomarmos café juntos. Só depois de olharmos a de frente é que nosso medo cessará. A carência quando mal administrada, pode se tornar um veneno para nós. Já vi muita gente se perdendo de si mesmo por agir sempre movido pela carência. Eu mesmo já cometi vários erros motivados por ela. Você não precisa ir muito longe para enxergar a quantidade de pessoas que construíram sua carreira profissional sem ter aptidão para a mesma, apenas para preencher lacunas afetivas. Já não tenho mais dedos para contar a quantidade de pessoas que eu conheço que tentam suprir suas carências no sexo. Vivem pulando de galho em galho em busca de um prazer que nunca será saciado (vale destacar que o uso da tecnologia hoje em dia não incentivou a promiscuidade, ela apenas deu maior acesso a mentes promíscuas). Também não são poucos os casos de pseudos relacionamentos em que o único elo que une duas pessoas é a carência, o medo de estar só. Em troca de uma aparente segurança, fingem que está tudo bem e vão empurrando com a barriga, quando nos bastidores, todos sabem que já não existe mais ligação emocional suficiente para levar adiante esse relacionamento. E assim vão adiando um sofrimento que mais cedo do que nunca, chegará.

Portanto, desconfie de suas motivações. Será que aquele sentimento que você julga sentir por alguém é algo verdadeiro? Será um sentimento genuíno ou apenas sua carência disfarçada de amor? Será que a carência tem sido sua aliada ou ela está indo na contramão do seu projeto de felicidade? Será que seus sonhos estão pautados em valores sólidos ou são movidos apenas por suas carências? Sua carência tem servido como sinal de alerta nas suas tomadas de decisão?

Enfim, são vários questionamentos que precisamos fazer, porém nunca esqueça disso: cuide bem de sua carência. Coloque-a no seu devido lugar. Sua carência nasce de algo belo e admirável, no entanto ela não pode ser a mola propulsora da sua vida. Ou você a administra, ou ela passa a administrar você. 

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