Imagem

“Fazer a viagem de Paris a Roma sempre a pé, sem nunca pegar qualquer carona, aos 75 anos de idade, não excedeu realmente minhas forças. Caminhante como sois, sabeis por experiência que a caminhada é um esporte que ajuda a manter o equilíbrio.
(…)
 
Há 50 anos que vivo habitualmente com os pobres, com os mais marginalizados pela sociedade. (…) Deus não criou os ricos para ajudarem os pobres, nem estes para suportarem os sofrimentos da injustiça e, consequentemente, obterem um céu melhor. “Que eles sejam UM”, disse Jesus. Ora, o amor autêntico não pode existir sem justiça.
(…)
 
Ora, muitos deles(católicos da Bretanha) se interrogam sobre questões da Igreja que consideram graves. E não são apenas os bretões que assim se questionam. Um pouco por todo o mundo, são muitos os cristãos que vivem e sentem o mesmo gênero de problemas. O poder expor tais problemas, lealmente, foi uma das razões que mais me motivou a percorrer a pé 1.507 quilômetros.
(…)
 
Depois de haver passado três anos no Brasil, vivendo, trabalhando e celebrando em comunidade de base, escrevi o livro”Caminho de Emaús no Brasil”, em cujo prefácio o cardeal Marty, um amigo com quem tinha estado três meses antes do acontecimento da sua trágica morte, escrevia: “João Paulo II acha que é útil e necessária a Teologia da Libertação”. Será mesmo assim? Ele próprio pediu-me para atrasar um pouco a edição, para ter tempo de confirmar a exatidão dessa informação. O livro, entretanto, saiu. Essa afirmação ficou impressa. A verdade é que desde vossa chegada a Roma, o Vaticano já nomeou mais de 100 bispos, todos eles ordinariamente opositores a essa Teologia. Que riqueza perdida ! Imagino que em suas orações tenha falado alguma vez a Deus de Leonardo Boff e de tantos outros desencorajados perante tais incoerências entre vosso discurso e vossa ação. Milhões de cristãos não compreendem vossa maneira de agir.
 
Há outra questão, entre muitas outras, que me sensibiliza também profundamente. Uma sobrinha minha foi como voluntária para o Haiti, mesmo sabendo que arriscava sua vida. Depois, foi expulsa. Quando voltou e sobe que entre todos os estados da Europa só o Vaticano tinha apoiado a ditadura militar daquele país, ficou revoltada. Realmente, de que lado está o Vaticano? Do lado dos mais fracos ou dos mais fortes e assassinos?
 
Antes de me lançar nesta aventura de percorrer 1.500 km a pé, refleti durante três anos, com amigos, leigos e padres. Um dos primeiros a quem comuniquei esse meu apelo interior, foi Dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza. Ouviu-me e sem fazer troça de mim, suspirou três vezes, repetindo: “1.500 km a pé!”
 
Está feito. Teria renegado a mim mesmo se não tivesse respondido a esse meu apelo e exigência interior.”
 
Texto extraído do Livro “Aos 75 anos Paris-Roma. 1.500 km a pé” do nosso querido Pe. Henri Le Boursicaud que trabalha e, se não me falha a memória, fundou o Movimento Emaús na comunidade carente Vila Velha, aqui em Fortaleza e na qual tive a honra de conheçê-lo pessoalmente quando esteve na Igreja Betesda divulgando seu livro e participando de um seminário sobre responsabilidade social da Igreja Betesda.

 

Anúncios