consagrada

“O amor me coloniza. Faz comigo o mesmo que Portugal fez com minha pátria. Arranca o ouro, devasta as reservas e me outorga misérias que frutificaram no futuro.
(…)
 
Amar é perder a pertença; ser invadida por outro, ver rasgada a cortina que me preservou por tantos anos indivisa, proprietária da decisão de descer escadas, cruzar a rua, realizar o simples da vida, o ordinário, o natural do ser livre. (…) Muitas vezes quis gritar minha independência, correr atrás da alforria que me abriria as portas do mundo, colocar os pés na estrada que permitiria a fuga do corpo, a liberdade tão almejada, mas não pude. (…) Fausto fez comigo o mesmo que o capitão faz com o navio. Acessou os comandos do motor, tomou posse do leme, quebrou qualquer distância que pusesse existir entre o planejado e o realizado.
(…)
 
Ele me prendeu sem alterar a voz. As primeiras ataduras vieram pelo seu olhar. Recordo-me. A missa estava começando quando pude perceber o moço bonito a observar-me de longe. O primeiro embate. Render-me ao ritual santo ou à atração da carne? Optei pela segunda. Ele estava no altar ajudando o Padre Clemente com a celebração. Era uma presença misteriosa. Nunca tinha sido visto na cidade. Um rosto coberto de estranhezas, oriundo de destinos que desconhecíamos. Somente depois pude saber que se tratava de um sobrinho do vigário. Veio para a cidade com o intuito de dar continuidade aos estudos. (…) O altar estava temporariamente deslocado. Deixara de ser de pedra. Assumira carne humana e olhava-me com os olhos.
(…)
 
Fausto. Eu ainda não sabia o nome dele. Dele eu não tinha quase nada. Somente o olhar envolvente, fixo, sem medo de ser flagrado em sua distração carnal. Olhava-me invasivo, sem escrúpulos. Dissecava todos os detalhes do meu corpo, medindo-me como se eu fosse uma estrada por onde desejava caminhar. (…) E eu o recebia,  assim como a terra recebe a chuva, agradecida.
 
Com a missa terminada, o início da possessão. Veio sozinho e antecipou-se em dizer que gostaria de conhecer-me. Não houve demora. Segurou minhas mãos e fez com a minha carne o mesmo que os olhos já tinham feito com minha parte imaterial. A proposta era simples, mas mudaria o rumo da minha vida. Um passeio público pelos jardins da praça matriz.
 
Já sabedora da origem do rapaz, minha mãe não se opôs ao que ele me sugeria.
(…)
 
Nove meses depois do primeiro encontro eu já era sua esposa. Com o casamento, ele desistiu dos estudos. Ajudado pelo tio, montou uma mercearia que ainda hoje é nosso sustento. Não tivemos filhos, Fausto achou por bem não deixar descendência. (…) Fausto nunca me permitiu pensar por mim. Meus pensamentos eram os dele. Minha capacidade reflexiva foi adormecida pelas suas ponderações sofridas. A inteligencia aguçada que antes estava em mim foi brutalmente assassinada pelo olhar do altar. Aquela missa tão distante no tempo  mudou minha vida. Desde aquele dia, Fausto cerceou-me sem recorrer as armas. Conquista mansa, pé a pé. Avanço lento, passos medidos que com o tempo foram ficando largos. 
(…)
 
O tempo passou. A clausura do amor me envelheceu. Agonizo dia e noite com o medo de perder o homem que preencheu todas as minhas ausências. (…) O amor que tenho por ele me empobrece. Sofro dia e noite de insegurança. (…) Fausto me aleijou a alma. Reduziu-me a ser humana, carne que morre sem auxílio da esperança eterna. Conheci o desconforto de necessitar de braços e pernas me enlaçando na solidão da noite, dedos e olhos me fazendo esquecer a beleza das realidade etéreas.
(…)
 
Ele me diabolizou. Cortou todos os símbolos que me emprestavam asas. Restou-me pouco. Eu e minhas circunstâncias. Eu e meu retalho de mundo. Sem sonhos, sem descendências, sem Deus. Meu mundo é Fausto. Minha alegria depende do perfeito funcionamento de suas tripas, coração, ossos, sangue e outras fragilidades. O cordão que me prende é tênue. Sofre de diabetes, pressão alta, pancreatite crônica. Meu redentor falece aos poucos.Cumpre a sina de vivera normativa falência que desencadeia a indigência que nos governa. 
(…)
 
Eu não sei o que farei no dia em que o altar estiver vazio. Não sei o que direi no momento em que meu deus pagão fechar os olhos e partir. (…) O frio do futuro não conhece misericórdia. (…) Depois daquela missa nunca mais fui a mesma. Minha mãe fez comigo o que Abraão não fez com Isaac. Entregou-me à lâmina. Fausto é meu algoz. Ao chegar em minha vida, desceu sobre minha alma sua cimitarra e assassinou meus significados antigos. Essa é minha condenação. Depois que Fausto se for, morrer será só morrer. Em vão.”
 
Texto extraído do livro “Orfandades – O Destino das Ausências” do Pe. Fábio de Melo.
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