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– Estou procurando o amor – disse Evelyn enquanto se remexia na cadeira,
tentando ficar confortável.
– E como está indo? – perguntei.
– Nada bem – afirmou ela.
– Há quanto tempo está procurando? – perguntei.
– Há cerca de quatro anos – respondeu ela, tentando sorrir. – Mas parece bem
mais do que isso.
– É bastante tempo.
– Também acho.
– Você já pensou em desistir?
– Ah, muitas vezes. – Ela riu.
As conversas com Evely n eram cheias de embates e brincadeiras. Ela tinha
um senso de humor que eu admirava muito. Mas decidi falar sério dessa vez. O
assunto era valioso demais para ser evitado. Portanto, olhei fixamente nos olhos
dela e, de maneira deliberada, repeti a pergunta: – Evelyn, alguma vez você já
pensou em desistir?
– O que você quer dizer com isso? – reagiu ela.
– Na minha opinião, procurar o amor a está impedindo de encontrá-lo.
– Então, o que você sugere?
– Pare de procurar.
Evelyn sempre tinha uma resposta na ponta da língua para tudo, mas dessa
vez não foi assim. Ela ficou em silêncio. Eu podia perceber a frustração, a raiva
e, por baixo, uma profunda tristeza.
– Você não está cansada de procurar o amor?
– Claro que sim – afirmou Evelyn enquanto pegava um lenço.
– Então simplesmente pare de procurar.
– Mas e aí?
Esse era apenas nosso segundo encontro, mas senti que ela estava disposta a
olhar as coisas de um jeito diferente. Então contei a ela como eu via a situação:
sua “busca pelo amor” era, na verdade, uma forma de negociar com Deus.
– É como se seu ego tivesse dado um ultimato a Deus, dizendo a Ele algo do
tipo “Só vou começar a viver quando encontrar o amor”, ou, mais exatamente,
“quando VOCÊ encontrar o amor para mim”. Apesar de isso parecer lógico, não
é assim que as coisas funcionam. Não se encontra o amor procurando-o.
– E como eu o encontro, então? – perguntou Evelyn.
– Bem, primeiro você precisa reconhecer que você é aquilo que estáprocurando – respondi.
Ela ficou calada, o que era a sua maneira de dizer “Continue falando”.
– Você ainda está procurando o amor porque não se sente digna de ser amada
– prossegui. – Você se esqueceu de que merece ser amada e esse esquecimento
é o que torna sua busca malsucedida.
– Eu não mereço ser amada… – confessou Evelyn baixinho.
– Para adquirir a capacidade de ser amada, você precisa olhar para si
mesma e encontrar o amor lá dentro.
Evely n não se mexia. Dava para ver que estava tentando provar o que eu
tinha acabado de dizer. Ela em breve chegaria a uma conclusão e eu logo saberia
se poderíamos seguir em frente ou não. De início ela resistiu, mas aos poucos a
expressão de seu rosto se suavizou e se tornou animada e aberta.
– Certo, vou parar de procurar o amor – disse ela, de maneira bem objetiva.
– Mas ainda quero encontrá-lo. Como é que eu faço isso?
– A primeira coisa a fazer é aceitar que você é amor – expliquei. – Isso é
importante porque afeto atrai afeto e, ao se conscientizar de que você é amor, se
sentirá à vontade para atraí-lo para sua vida.
– Ok, vou me concentrar nisso – disse ela. – Mas você pode me dar algo mais
prático para fazer nesse meio-tempo?
– Sim. Mas só se você prometer não negligenciar o que eu acabei de falar.
– Tudo bem, tudo bem – respondeu, com certa impaciência.
– O jeito de encontrar o amor é sendo uma pessoa mais afetuosa – revelei.
– Eu sou uma pessoa afetuosa! – protestou ela.
– Estou pedindo que você seja uma pessoa mais afetuosa – repliquei.
– Por quê?
– Porque ser mais afetuosa com todo mundo é a expressão do verdadeiro
amor – expliquei. – É também a chave para ser capaz de amar alguém.
– Então como eu começo a ser afetuosa com todo mundo? – perguntou
Evely n.
– O primeiro passo é ter um pouco de boa vontade.
– Fácil, posso fazer isso. Qual é o segundo?
– O segundo passo é estar aberta para deixar que o amor mostre como amar
todo mundo.

Procurar o amor é um horror. Todo mundo já passou por isso. É um estado de
espírito que as pessoas vivenciam quando esquecem quem elas são e o que é o
amor. Essa busca nos leva a acreditar que nós e o amor somos duas coisas
separadas. Pensamos que o propósito da vida é encontrá-lo, e então, quando
enfim o encontramos, não podemos perdê-lo novamente.
Procurar o amor é assustador. E a razão disso é que você tem medo de não
ser digno de ser amado. Esse é o medo mais básico que sentimos e é a origem de todos os outros medos. Mas ele não é real. No entanto, você acredita nele e
começa a procurar desesperadamente alguém que o considere digno de receber
amor. Mas onde vai encontrar essa pessoa? E quais são as chances de ela gostar
de você se você não se gosta?
Procurar o amor é doloroso. Você busca o amor porque decidiu que não é
uma pessoa digna de ser amada. Até que mude de ideia a respeito de si mesmo,sua única esperança é encontrar alguém que derrube esse julgamento
equivocado. Então você tenta criar uma imagem agradável para esconder sua
dor e conquistar alguém. Essa imagem sabe seduzir, chamar atenção e provocar
admiração, mas não é seu verdadeiro eu, portanto não atrai o amor de verdade.
Assim, você continua procurando, mas, como não muda de opinião sobre si
mesmo, tudo o que encontra é mais desamor.

É difícil acreditar no amor quando se está procurando por ele. Quanto mais
você o procura, mais indigno dele você se sente. Como não acredita que merece
ser amado, não consegue acreditar que alguém possa amar você. No fim, você
começa a duvidar da existência do amor. É impossível acreditar nisso e continuar
vivendo. Então você chega a um impasse: procurar o amor não deu certo;
portanto, está na hora de tentar outra coisa. E isso é ótimo.
O caminho para sair desse círculo vicioso é entender o que está bloqueando o
amor em sua vida. Examine as motivações que levam você a procurá-lo.
Abandone as imagens de desamor que você criou para si mesmo. Buscar o
amor, no sentido mais verdadeiro, não tem a ver com encontrar alguém; tem a
ver com reencontrar você mesmo. Esteja disposto a abandonar suas velhas
teorias, suas ideias preconcebidas, suas histórias passadas e, como disse William
Blake, “limpe as portas da percepção”, de modo a deixar o amor aparecer como
ele realmente é.

O amor é uma jornada interior de volta ao lar. A estrada para chegar lá
começa aqui, exatamente onde você está agora. O objetivo dessa jornada não é
encontrar o amor; é conhecê-lo. E esse conhecimento já existe em você – é a
sua capacidade de amar e ser amado.

 

Texto extraído do livro “A arte de amar e ser amado” de Robert Holden.

 

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destaque-resenha-1984

Guerra é Paz

Liberdade é Escravidão

Ignorância é Força

Esse é o lema do Partido. Política dominante no mundo de 1984. Imagine-se vivendo em um mundo onde você é observado o tempo todo. Na sua casa, há um aparelho chamado teletela que transmite notícias e te observa, te avalia. Se, por exemplo, em uma notícia boa dada pelo governo você não transmite felicidade em sua expressão, pior, transmite desprezo ou desinteresse, você é preso por cometer facecrime.

O Grande Irmão zela por ti… O Grande Irmão é o líder. O correto. O maravilhoso. Ele é praticamente Deus. E ai se você dizer o contrário. É ele quem toma as decisões e ele está sempre correto.

É nesse mundo que vive Winston. Ele trabalha no Ministério da Verdade, que de verdadeiro não tem nada. O trabalho de Winston é alterar o passado. Mas como isso? Simples. Ao sair uma notícia onde os dados não batem com algo que o Grande Irmão disse em um passado remoto ou não, os jornais são alterados. Tudo o que provaria que o Grande Irmão errou é falsificado – mas essa palavra nunca é usada. O Grande Irmão nunca erra.

O livro nos conta a vida de Winston nessa incrível – não deixa de ser – sociedade. Ele não se sente bem vivendo dessa forma. Odeia o Partido, deseja que ele acabe, deseja ser livre, embora não saiba realmente o que é isso. Até onde se lembra o mundo sempre foi assim e sempre será.

O ápice da história acontece quando ele encontra Júlia que revela – bem discretamente, senão seria presa – que o ama. Eles começam um romance, claro que proibido. Winston já foi casado e por isso seria proibido casar novamente. O amor é tratado como algo que não vale a pena, uma coisa ruim. Um casal, ao preparar os documentos para o casamento, não pode demonstrar qualquer atração física pelo futuro parceiro. O casamento é um ato unicamente para gerar filhos. E o sexo – algo sujo – só deve ser feito nessa condição.

Achei muito gostosa a história de Winston e Júlia, embora – você já deve ter imaginado – ela não acabe bem. É um romance profundo e é angustiante saber que nunca poderá ser revelado.

Em algumas partes do livro cheguei a pensar comigo mesma: mas que população mais idiota! Como no caso das guerras. Winston habita na Oceania e há mais dois países: Eurásia e Lestásia. A guerra é sempre constante. Por vez, a Oceania é aliada da Eurásia e luta com a Lestásia ou o contrário, mas de acordo com as regras do Partido, se hoje estão em guerra com a Lestásia, sempre foi assim. Qualquer prova que diz o contrário é falsificada, destruída. É claro que as pessoas se lembram do acontecimento, mas fingem não lembrar. Aceitam, como se fosse sempre assim. Não é bem um caso de burrice, mas de sobrevivência. Dizer em voz alta que: não, antes estávamos em guerra com a Eurásia; acarreta em prisão e até morte.

1984 é um reflexo do que nossa sociedade está se tornando, ou já se tornou. É incrível que Orwell, que faleceu em 1950, tenha visto com tanta clareza o mundo em que viveríamos. O Partido hoje pode ser comparado com a imprensa, a televisão. Tudo o que ela diz é verdade, nada é questionado. Ela nos mostra o lado que alguém quer que vejamos. É difícil encontrar hoje na TV uma notícia que nos mostra a total realidade. Daqui a uns anos, se nos disserem que 2 + 2 = 5, muitos irão acreditar.

Um clássico que merece ser um clássico. Leitura obrigatória!

Texto extraído do site Leitor Cabuloso em 27/05/2018 as 14:14.
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